17 ago

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Corsair Marine / Shutterstock.com

Extrema-direita? Neonazismo? O que está acontecendo nos Estados Unidos (e no mundo)?

A violência que tomou conta das ruas de Charlottesville, uma cidade universitária no conservador estado da Virgínia, nos EUA, nas últimas semanas tem como pano de fundo o dramático aumento na proeminência de grupos de extrema-direita no país.

Convidamos o Fernando Delmonte, professor de História do COC SJC, para falar sobre o assunto.

  • O que deu início a essa onda de violência em Charlottesville?

 

Várias cidades do sul dos Estados Unidos estão retirando os monumentos e alterando os nomes de lugares públicos que homenageavam líderes confederados na Guerra de Secessão (1861-1865). Nessa guerra, os estados escravistas do Sul, auto-denominados “Confederados”, se rebelaram contra a “União” (estados do Norte sob o comando do presidente Abraham Lincoln) que defendia a abolição da escravidão.

Em Charlottesville, desde 2012 existe um projeto na câmara municipal para retirar a estátua do General Lee (líder Confederado) de um parque homônimo. Semana passada, a câmara conseguiu finalmente alterar o nome do local para “Parque da Emancipação” despertando a ira de movimentos racistas, contra a mudança do nome do parque e contra a retirada da estátua.

No sábado – 12 de agosto de 2017 – grupos racistas da “Supremacia Branca”, assim como neonazistas e membros da “Ku-Klux-Klan”, entraram em confronto contra manifestantes anti-racistas. O jovem neonazista James Alex Fields (20 anos) avançou seu carro contra uma passeata de manifestantes anti-racistas e matou uma jovem de 32 anos e ainda feriu 19 pessoas. Após tentativa de fuga ele foi preso e teve o seu pedido de fiança negado.

  • Qual é a origem do neonazismo?

 

A origem do neonazismo remonta primeiramente ao nazismo, partido político alemão fundado em 1919, cujo principal líder foi Adolf Hitler, eleito para ser chanceler em 1933 tornou-se o fürher (líder) ao proclamar o Terceiro Reich e impor suas ideias racistas de supremacia ariana (domínio da “raça pura” germânica), eugenia (“purificação racial”) e principalmente do anti-semitismo (perseguição aos judeus), porém, perseguindo e exterminando também outras minorias como negros, ciganos, homossexuais e pessoas com deficiência mental, entre outras.

A expansão territorial nazista causou a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e o holocausto dos judeus (mais de 6 milhões de mortos em campos de concentração). Quando a guerra terminou, o Julgamento de Nuremberg condenou vários líderes nazistas por seus crimes contra a humanidade. Porém, muitos nazistas e simpatizantes simplesmente escaparam impunes. Alguns foram assimilados por sua importância intelectual, o caso mais famoso é o físico Von Braun (nazista filiado ao partido e a SS), “pai” dos foguetes de propulsão na Alemanha e que posteriormente trabalhou nos EUA, ajudando a implantar a tecnologia dos foguetes que levariam o país à conquista da Lua em 1969.

Nos anos 70 e 80, a crise do “Estado de Bem Estar Social” (Welfare State) e do socialismo, assim como a expansão do neoliberalismo e da globalização, provocaram uma onda de migrações em diversos países da Europa e também nos EUA. A população “branca” americana e europeia, sentiu-se ameaçada, temendo o desaparecimento de sua cultura e de seus empregos. Então, o neonazismo e outros grupos racistas ganharam força, potencializados mais recentemente pela internet, pela crise mundial de 2008 e pelo desaparecimento dos empregos de baixa escolaridade, provocado pela revolução tecnológica.

  • O discurso do neonazismo é o mesmo dos nazistas? O que eles defendem hoje em dia?

 

É o mesmo ideário racista, porém o discurso é adaptado aos contextos locais de cada país e em momentos de crise, como agora, ele se intensifica. O nazismo alemão se erigiu contra os judeus, principalmente no contexto da crise de 1929.

Sempre houve o medo “do outro”, daquele que “é diferente”, daquele que “vem de fora”. Mas, sobretudo no caso do racismo, esse sentimento denota debilidade racional e desequilíbrio emocional pois atribui ao outro a responsabilidade pelo mal que se sente.

Esses sentimentos racistas, velados ou não, são facilmente verificados: na Inglaterra (ingleses x indianos), na França (franceses x argelinos), na Alemanha (alemães x turcos), nos EUA (americanos x latinos e negros), isso sem contar a desconfiança contra muçulmanos em geral.

Os neonazistas e racistas em geral são ultra-nacionalistas de extrema-direita. Defendem uma “supremacia branca”, no caso dos Estados Unidos postulam uma “América (só) para os brancos” – os índios que já estavam aqui antes e os negros que vieram escravizados não contam. São movimentos sempre excludentes e anti-democráticos por princípios.  Devem estar muito incomodados com as recentes conquistas simbólicas, como as duas eleições de um presidente negro (Barak Obama – 2009-2017) ou ainda a ampliação de direitos difusos como o casamento gay, a legitimação do movimento LGBT, etc.

  • Quais são as maiores problemáticas causadas por esse movimento?

 

Esses movimentos são consequências da banalização do populismo xenófobo adotado por vários políticos e partidos. Nas eleições de 2017, Marine Le Pen, da Frente Nacional, partido de extrema-direita, ficou em segundo lugar na disputa pela presidência da França. Na Holanda o candidato de extrema-direita chegou a liderar as pesquisas, mas acabou sendo derrotado. Na maior crise de refugiados desde a Segunda Guerra, a Inglaterra opta pelo Brexit, isolando-se ainda mais dos problemas do continente. Os EUA elegem Trump, mesmo com um discurso assumidamente xenófobo e prometendo construir um muro entre os Estados Unidos e o México! No Brasil, as eleições do próximo ano, podem seguir caminho semelhante!

Incentivados pelo aumento do tom na fala de políticos do mundo todo, além do anonimato confortável oferecido pela internet, esses movimentos racistas tendem a crescer e não temem mostrar a cara, sobretudo quando não se sentem reprimidos. Por isso, o pronunciamento de Trump – que não condenou enfaticamente os grupos racistas – foi tão criticado. Na primeira fala, ele apenas fez alusões genéricas, condenando a violência de ambos os lados. Somente no segundo pronunciamento ele se posicionou mais enfaticamente contra os racistas.  Porém, o racismo e a xenofobia exigem medidas imediatas e enérgicas por parte dos governos, em nome do Estado de Direito e da Democracia.

Por outro lado, o tweet do ex-presidente Barack Obama sobre Charlottesville bateu o recorde da história do Twitter, mais de 4 milhões de curtidas até agora! É que Obama publicou trechos de uma entrevista de Nélson Mandela, líder da luta contra o apartheid na África do Sul, que resume bem o sentimento das pessoas e a responsabilidade da educação:

“Ninguém nasce odiando outra pessoa por causa da cor da sua pele, sua cultura ou sua religião. As pessoas precisam aprender a odiar, e se elas podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar”.

Delmonte ainda conclui dando dicas de filmes que têm muito a ver com o tema. Confira:

FILMES RELACIONADOS:

  • O Ovo da Serpente – Ingmar Bergman (1977) – A ascensão do nazismo na Alemanha.
  • Fita Branca – Michael Haneke (2009) – Os anos que antecederam o nazismo na Alemanha.
  • A Outra História Americana (American History X) – Tony Kaye (1998) – Neonazistas nos EUA.
  • A Onda – Dennis Gansel (2008) – Professor de História na Alemanha faz uma experiência sobre o nazismo no colégio.
  • SelmaAva DuVernay (2014) – A luta de Martin Luther King pelo direito ao voto dos negros nos EUA.
  • O Senhor das Moscas – Harry Hook (1990) – Alegoria mais geral sobre a natureza humana. Filme baseado no clássico homônimo do prêmio Nobel de Literatura de 1983, William Golding.

Para deixar tudo ainda mais explicado, assista esse documentário bem recente sobre a situação em Charlottesville, criado pela VICE em parceria com o HBO:

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