16 set

Confira a entrevista com a psicóloga e psicanalista Vanessa Muraca

Em 2015 foi oficializada a campanha brasileira de prevenção ao suicídio, uma iniciativa do Centro de Valorização da Vida, do Conselho Federal de Medicina e da Associação Brasileira de Psiquiatria com o objetivo de falar sobre saúde mental e abrir o debate sobre causas e consequências de transtornos que podem acometer diferentes pessoas.

Apesar de ser um tema pertinente em todo o ano, já que saúde mental é coisa séria, durante este mês são comuns maiores discussões sobre o tema e a importância da abordagem e da desmistificação dos transtornos mentais que podem acometer crianças, jovens, adultos e idosos.

Falando mais especificamente da faixa etária em que os estudantes estão, os dados parece mais alarmantes ainda: um levantamento feito por pesquisadores da UNIFESP aponta que, no Brasil, a taxa de suicídio de jovens entre 14 e 29 anos aumentou 24% entre os anos de 2006 e 2015. Por isso é importante falar sobre saúde mental e seus desdobramentos.

Para contribuir com as discussões do Setembro Amarelo e abrir as portas para o debate entre alunos e professores dentro da escola, convidamos a psicóloga e psicanalista Vanessa de Fátima Muraca, que atua na área clínica em São José dos Campos e também é membro do Circuito Ponto de Estofo, um espaço que tem o objetivo de promover discussões sobre o pensamento de Freud e Lacan em Mogi das Cruzes.

Fatores sociais, econômicos e políticos exercem influência direta e indiretamente no estado psíquico das pessoas.

COC: O Brasil é o país mais deprimido da América Latina, segundo dados da OMS divulgados em 2017. Para você, quais fatores estão relacionados a este resultado? 

Vanessa Muraca: Fatores sociais, econômicos e políticos exercem influência direta e indiretamente no estado psíquico das pessoas. Sabe-se que o Brasil enfrenta um contexto pouco favorável nestes aspectos e isso tem seus desdobramentos. Outro fator importante na atualidade é o avanço da tecnologia, que traz como um “efeito colateral” o enfraquecimento dos vínculos sociais e afetivos, com isso o declínio das experiências de intimidade e proximidade. A consequência é um sentimento de solidão, as pessoas estão constantemente conectadas pelo virtual, mas desconectadas na vida real. 

Entre os jovens, especialmente, há ainda outro fator, a carga de pressão e ansiedade trazida pelas mídias virtuais. 

A adolescência é vista como uma fase decisiva da vida, um período nada tranquilo, permeado por incertezas, medos, ansiedades, escolhas, frustrações e sofrimentos. Acontece que hoje se idealiza e espera-se muito dos jovens, a expectativa da família, que pode oferecer recursos, é de que os filhos deem conta de muitas coisas. Espera-se que os adolescentes sejam bem sucedidos profissionalmente e em todos os outros aspectos da vida, com agendas cheias, é preciso dar conta de estudar, fazer um idioma, um esporte, tocar um instrumento, ter vida social ativa, e que sejam muito felizes sempre em todos os âmbitos da vida. Há, portanto, uma expectativa muito grande depositada no jovem e aí quando algo não sai como o planejado e é evidente que nem tudo vai sair, acontece também uma enorme frustração. 

O perigo é quando o jovem tenta, de alguma forma, responder a essa demanda da família, da escola e também da sociedade tentando atingir uma perfeição, responder a uma demanda que é inatingível, o resultado é frustração.  As mídias sociais reforçam e refletem muito isso ao passo que apresentam essencialmente postagens de perfeição, as pessoas sempre muito bonitas, felizes o tempo todo, demonstrando algo que muitas vezes nem estão sentindo, situações que não condizem com a realidade de fato, sendo tudo muito ilusório. Cria-se com isso uma suposição de que o outro é feliz e eu não, o outro faz coisas incríveis que eu não faço, o outro consegue chegar onde eu não consigo. 

A sensação que vem é de fracasso e frustração, o que só aumenta a ansiedade e a angústia podendo até ocasionar um desequilíbrio emocional. Redes sociais não condizem com a vida cotidiana e real das pessoas, é como uma propaganda enganosa que “vende” um ideal de felicidade plena, que não existe. Impossibilitando que o indivíduo tenha espaço para ser quem ele realmente é, com suas conquistas, alegrias, mas também com suas falhas, tropeços e imperfeições, inerentes a qualquer sujeito, sem com isso tornar-se alvo de críticas alheias. A consequência desse efeito das mídias virtuais é sentida sempre no real, levando a possíveis adoecimentos.

COC: Quais são os transtornos mentais mais comuns diagnosticados entre os jovens? É possível apontar o período em que os diagnósticos são mais intensos? 

Vanessa Muraca: A depressão (que pode eventualmente levar ao suicídio), pânicos, os transtornos alimentares, drogadição e o cutting (cortar-se ou escarificar-se) são algumas formas frequentes de sofrimento psíquico na adolescência. 

Não há um período específico, a meu ver, porque é sempre no singular, no um a um.

Não há um período específico, a meu ver, porque é sempre no singular, no um a um. Quando um sofrimento psíquico não é colocado em palavras, escutado, acolhido, reconhecido, quando ele é vivido em silêncio, o adoecimento pode ser um destino do sofrimento e os adolescentes têm uma tendência em silenciar e colocar os sentimentos em ato, no corpo e pouco na palavra. Muitas vezes, adoecem.

COC: E como funciona, na prática, o processo de diagnóstico e tratamento? Há resistência dos jovens ou de seus familiares?

Vanessa Muraca: O sofrimento psíquico faz parte da vida de todos nós, mas quando algo foge do controle ficando impossível de lidar é fundamental buscar ajuda profissional. Os profissionais que fazem o diagnóstico e tratamento são os psicólogos, psicanalistas e psiquiatras. O diagnóstico é clínico, não há exames que constatam os transtornos mentais ou qualquer tipo de sofrimento psíquico. 

O tratamento é psicoterapia com um psicólogo ou análise com um psicanalista e medicamentos, quando necessário, sob o acompanhamento de um psiquiatra. Ainda há resistência, muitas vezes, entende-se procurar ajuda como um sinal de fracasso, por vezes, a família sente-se culpada e jovem também. No entanto, procurar ajuda é um sinal de enfrentamento.

COC: Como os alunos podem se perceber e compreender o quadro em que estão? Além, claro, de buscar ajuda profissional. Alguns sintomas podem ser confundidos com situações triviais e levá-los a pensar que possuem algum transtorno? 

Vanessa Muraca: Não existe uma receita pronta a ser seguida, mas o caminho é poder se escutar, quando algo não vai bem, tentar distinguir se é uma tristeza passageira ou algo que persiste, algo impossível de lidar. 

É natural, por exemplo, às vésperas de um vestibular ficar mais tenso, ter alteração no apetite, no sono, justamente por conta do aumento da ansiedade.

Assim como é natural também ficar triste quando se termina um relacionamento amoroso, sofrer faz parte da vida. Mas há sofrimentos que tomam maiores proporções, trazendo impactos para a vida, ou colocando a vida em risco. Como por exemplo, ter ideações suicidas, com planejamentos ou tentativas significa que não está sendo possível lidar com essa dor. É importante não deixar o sofrimento chegar a esse extremo, deve ser cuidado antes disso.

COC: Como aliviar o dia a dia e manter a saúde mental em dia, mesmo em tempos tão corridos e decisivos? Existem maneiras efetivas para prevenir esses quadros? 

Vanessa Muraca: É fundamental dar espaço aos sentimentos e sofrimentos, quero dizer que é preciso falar, colocar em palavras. O sofrimento quando falado, narrado, pode se transformar. Quando não é dito, é silenciado, toma outras dimensões. A prevenção pode ser a palavra, a escuta e o reconhecimento de um sofrimento.

COC: Qual é o papel da família na prevenção e no cuidado dos jovens que possuem diagnósticos como os citados acima, principalmente na época que antecede a entrada na universidade e a pressão pré-vestibular que, direta ou indiretamente, acaba sendo exercida sobre eles?

Vanessa Muraca: De fato a pressão é muito alta nessa fase da vida do jovem. É importante que a família e, principalmente, ele próprio compreenda que dentre as metas traçadas muitas podem ser alcançadas, mas certamente não todas. Há sempre algo que escapa e é assim mesmo. Se não for possível, por exemplo, passar no vestibular nesse momento, é possível tentar novamente. Se não conseguir a universidade mais desejada, pode conseguir outra. Se fizer uma escolha profissional hoje e lá na frente perceber que o desejo passa por outra via, pode-se rever essa escolha, traçar outros caminhos.

Se não for possível, por exemplo, passar no vestibular nesse momento, é possível tentar novamente. Se não conseguir a universidade mais desejada, pode conseguir outra. Se fizer uma escolha profissional hoje e lá na frente perceber que o desejo passa por outra via, pode-se rever essa escolha, traçar outros caminhos.

Cada conquista depende de um percurso, que envolve tempo de estudo, dedicação, empenho, abrir mão de algumas coisas em detrimento de outras e que cada um pode fazê-lo dentro das suas possibilidades e escolhas. E principalmente entender que o seu percurso será diferente do colega ao lado. É sempre muito singular. Compreender isso diminui muito essa expectativa ilusória de perfeição e evita a ansiedade exacerbada, possibilitando passar por esse momento de uma forma menos tensa e sofrida.

Tanto a família como a escola deve oferecer espaço para o adolescente se colocar, fazer suas escolhas, falar das suas posições sobre determinados assuntos, partilhar seus anseios, seus sonhos, seus medos, possibilitando que ele possa encontrar acolhimento e reconhecimento nessa fase tão turbulenta.

Tanto a família como a escola deve oferecer espaço para o adolescente se colocar, fazer suas escolhas, falar das suas posições sobre determinados assuntos, partilhar seus anseios, seus sonhos, seus medos, possibilitando que ele possa encontrar acolhimento e reconhecimento nessa fase tão turbulenta. Mas que apesar de turbulenta, é também muito encantadora por ser um momento em que se escolhe a direção que quer seguir  pode-se alçar novos voos. 

Cuidar da saúde mental é importante para poder garantir bons momentos antes, durante e depois da etapa pré-vestibular! E para isso é preciso desmistificar e quebrar alguns tabus para falar sobre o assunto dentro de casa, na escola e na roda de amigos, e principalmente lembrar que, em caso de necessidade, é importante procurar ajuda de um profissional habilitado.

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